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[vc_row][vc_column][vc_column_text]Rabino Uri Lam, Beth-El, janeiro de 2020

Deus ordena a Moisés: “Bô el Paró, hiḥbadeti et libô. Vá até o Faraó; Fiz pesar seu coração” (Êx. 10:1)

Moisés foi escolhido por Deus para convencer um comandante orgulhoso a abrir mão da comodidade de ter escravos. Para piorar as coisas, Deus decidiu tornar o coração do Faraó ainda mais pesado do que já era.

Tem quem diga, como Rabi Yoḥanan, no Talmud, que a Torá dá uma brecha para isentar o Faraó de culpa; afinal, foi Deus que tornou o seu coração pesado. Independentemente de quem for o culpado, Deus ou o Faraó, na vida somos colocados em situações que precisamos enfrentar. A pergunta é: como fazer isso eticamente.

Para isso, a tradição judaica nos dá as orientações de Mussár, a conduta ética ensinada por grandes sábios do nosso povo. Na obra Shney Luchot Habrit (As Duas Tábuas da Aliança), o rabino medieval Isaiah Horowitz nos ensina que devemos advertir alguém por seus erros pelo menos três vezes, antes de buscarmos uma solução punitiva. Deus advertiu o Faraó pelo menos cinco vezes, mas este não Lhe deu ouvidos. Foi só depois disso que Deus acrescentou ao coração já pesado do Faraó ainda mais peso. Portanto, quem é o responsável pelo sofrimento dos hebreus, quem tem o coração pesado e não liberta os escravos é o Faraó; Deus não pode ser culpado pela dor do Povo de Israel. Menos mal: em vez de ter que enfrentar Deus, Moisés enfrenta outro homem. Deus está do lado de Moisés e dos escravos.

Um valor ético e tipicamente judaico é: Deus não está do lado dos poderosos; Deus está do lado dos mais fracos. Deus não precisa dos poderosos; Mi kamocha baelim, Adonai? Quem se compara a Você entre os poderosos, Ad!onai? Ninguém.

Deus está do lado dos órfãos, das viúvas e dos estrangeiros: estas são as categorias da Torá referentes aos setores mais frágeis de uma sociedade. Hoje em dia, podemos dizer que Deus está ao lado de quem? De um presidente, de um governador, de uma mulher de negócios poderosa e influente? Ou do lado dos mais pobres, dos que dormem no pó e dos que estão curvados, como dizemos nas nossas bênçãos da manhã?

Moisés estava em guerra com o Faraó. Na guerra, como durante as dez pragas sobre o Egito, as percepções ficam distorcidas; alguns governantes aproveitam a crise para declarar que Deus está do lado deles; não está. O monoteísmo ético judaico entende que Deus sempre estará do lado dos mais fragilizados. Deus é, literalmente, o fiel da balança. Deus é fiel às pessoas mais sofridas.

Quando deixamos o Egito e seguimos pelo deserto, corremos o grande risco de nos esquecermos de que lado Deus estava. Nossos profetas advertiam que, quando chegássemos à Terra Prometida, prosperássemos  e engordássemos, não poderíamos nos esquecer que um dia fomos escravos e que fomos estrangeiros.

Deus não está do lado do Povo de Israel de modo incondicional. Deus está do nosso lado enquanto estivermos do lado Dele, ou seja, do lado dos mais pobres, dos marginalizados e dos discriminados por qualquer motivo. Este é o caminho para não nos tornarmos faraós com lev kavêd, coração pesado, e nos mantermos ao lado de Deus com kavód, com honra, estendendo a mão para quem precisa de nós.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]